A Internet veio, instalou-se, faz parte das nossas vidas. Mudou a sociedade e mudou também o movimento monárquico, pelo menos na sua forma de comunicação. Mas se nos aproximou, também veio sublinhar as nossas diferenças. Se promove o debate, também realça a falta de valor da argumentação. Se é fonte de novas ideias, quase todas vão parar ao caixote de lixo do esquecimento. Não é apenas um problema dos monárquicos porque não somos um grupo de eremitas ascetas, nem um conjunto de revolucionários que se escondem, nem muito menos uma sociedade secreta com tendências e objectivos escondidos. A nossa agenda é bem clara, o nosso objectivo é forte, o nosso propósito já vem dos tempos dos nossos avós.
No seu início, a Internet era a revolução definitiva que nos haveria de libertar. Em que se tornou? - Uma fogueira de vaidades em sites de sociabilidade sem interesse ou relevância, pseudo-movimentos e blogs que não são mais do que um poço sem fundo de incoerências, um vazio infinito. Afinal não fomos libertados, fomos aprisionados ainda mais em nós mesmos e nos nossos erros, em idiossincrasias sem significado. De que serve a informação ilimitada se é errada e controlada por grupos de valores e intenções duvidosas? De que serve o acesso universal se o que se banalizou não foi o conhecimento ou a sabedoria, mas sim a pornografia?
Não haja dúvidas: destruímos o produto com maior potencialidade dos últimos séculos da humanidade. Que se perdeu em vulgaridades e mediocridades, por um vocabulário ridículo que envergonharia os nossos melhores escritores, por relações humanas pouco saudáveis, por uma socialização doentia que se está a tornar sacrossanta. No final perdemos todos, elevámos a fragilidade de valores e a adoração dos prazeres imediatos da sociedade. Desengane-se quem pensa que aprendemos a pensar com o progresso tecnológico, estamos é a aprender a ser domesticados com maior eficácia e rapidez. Estamos a viver uma nova idade média formada por crise económica, crise de valores, crise de ideias e , pior que tudo, crise de esperança. Eu ainda acredito, porque acredito que um dia certo Pescador da Galileia lançou uma rede num local estéril, mas depois o barco quase transbordou de peixes e alimentou milhares de pessoas. É um milagre que é necessário hoje em dia, nesta rede em que comunicamos.
Quarta-feira, Janeiro 11, 2012
Quarta-feira, Outubro 05, 2011
5 de Outubro de 1143: Tratado de Zamora
O Tratado de Zamora foi um diploma resultante da conferência de paz entre D. Afonso Henriques e seu primo, Afonso VII de Leão e Castela. Celebrado a 5 de Outubro de 1143, esta é considerada como a data da independência de Portugal e o início da dinastia afonsina. Em Zamora, revogou-se o anterior Tratado de Tui datado de 1137.
Vitorioso na batalha de Ourique, em 1139, D. Afonso Henriques beneficiou da acção desenvolvida, em favor da constituição do novo Reino de Portugal, pelo arcebispo de Braga, Dom João Peculiar. Este procurara conciliar os dois primeiros e fez com que eles se encontrassem em Zamora nos dias 4 e 5 de Outubro de 1143 na presença do cardeal Guido de Vico.
Pelos termos do tratado, Afonso VII concordou em que o Condado Portucalense passasse a ser Reino, tendo D. Afonso Henriques como seu "rex" (rei). Embora reconhecesse a independência, D. Afonso Henriques continuava a ser vassalo, pois D. Afonso VII para além de ser rei de Leão e Castela se considerava imperador de toda a Hispânia. Contudo nunca D. Afonso Henriques prestou vassalagem a ele, sendo caso único de entre todos os reis existentes na península Ibérica.
A soberania portuguesa, reconhecida por Afonso VII em Zamora, veio a ser confirmada pelo Papa Alexandre III só em 1179, mas o título de "rex", que D. Afonso Henriques usava desde 1140, foi confirmado em Zamora, comprometendo-se então o monarca português, ante o cardeal, a considerar-se vassalo da Santa Sé, obrigando-se, por si e pelos seus descendentes, ao pagamento de um censo anual.
A partir de 1143 D. Afonso Henriques vai enviar ao Papa remissórias declarando-se seu vassalo lígio e comprometendo-se a enviar anualmente uma determinada quantia de ouro. As negociações vão durar vários anos, de 1143 a 1179.
Em 1179 o Papa Alexandre III envia a D. Afonso Henriques a "Bula Manifestis probatum"; neste documento o Papa aceita que D. Afonso Henriques lhe preste vassalagem directa, reconhece-se definitivamente a independência do Reino de Portugal sem vassalagem em relação a D. Afonso VII de Leão e Castela (pois nenhum vassalo podia ter dois senhores directos) e D. Afonso Henriques como primeiro rei de Portugal, ou seja, Afonso I de Portugal.
in wikipedia
Vitorioso na batalha de Ourique, em 1139, D. Afonso Henriques beneficiou da acção desenvolvida, em favor da constituição do novo Reino de Portugal, pelo arcebispo de Braga, Dom João Peculiar. Este procurara conciliar os dois primeiros e fez com que eles se encontrassem em Zamora nos dias 4 e 5 de Outubro de 1143 na presença do cardeal Guido de Vico.
Pelos termos do tratado, Afonso VII concordou em que o Condado Portucalense passasse a ser Reino, tendo D. Afonso Henriques como seu "rex" (rei). Embora reconhecesse a independência, D. Afonso Henriques continuava a ser vassalo, pois D. Afonso VII para além de ser rei de Leão e Castela se considerava imperador de toda a Hispânia. Contudo nunca D. Afonso Henriques prestou vassalagem a ele, sendo caso único de entre todos os reis existentes na península Ibérica.
A soberania portuguesa, reconhecida por Afonso VII em Zamora, veio a ser confirmada pelo Papa Alexandre III só em 1179, mas o título de "rex", que D. Afonso Henriques usava desde 1140, foi confirmado em Zamora, comprometendo-se então o monarca português, ante o cardeal, a considerar-se vassalo da Santa Sé, obrigando-se, por si e pelos seus descendentes, ao pagamento de um censo anual.
A partir de 1143 D. Afonso Henriques vai enviar ao Papa remissórias declarando-se seu vassalo lígio e comprometendo-se a enviar anualmente uma determinada quantia de ouro. As negociações vão durar vários anos, de 1143 a 1179.
Em 1179 o Papa Alexandre III envia a D. Afonso Henriques a "Bula Manifestis probatum"; neste documento o Papa aceita que D. Afonso Henriques lhe preste vassalagem directa, reconhece-se definitivamente a independência do Reino de Portugal sem vassalagem em relação a D. Afonso VII de Leão e Castela (pois nenhum vassalo podia ter dois senhores directos) e D. Afonso Henriques como primeiro rei de Portugal, ou seja, Afonso I de Portugal.
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Sábado, Julho 30, 2011
Quem são os Windsor?
Quando se pensa em monarquia, a primeira imagem que vem à cabeça é a da família real britânica e da Rainha Isabel II. É a monarquia com mais poder - reina não só no Reino Unido mas é chefe de Estado também dos países da Commonwealth, incluindo Nova Zelândia, Canadá e Austrália. E Isabel II é a monarca europeia que bateu o recorde de longevidade no trono [mas não em tempo de reinado: a recordista é Vitória, que morreu com 82 anos, esteve 63 no trono. Para a ultrapassar, Isabel terá de ser ainda rainha em 2015]." Rui Monteiro, 35 anos, matemático, bolseiro de investigação na Universidade de Aveiro, membro do Instituto da Democracia, não é o monárquico típico, se isso existe. Militante socialista, encontrou no avô paterno, que morreu antes do seu nascimento, a inspiração para a descoberta dessa perspectiva. "Foi por volta dos 14 anos. Fui visitar a minha avó e entrei no gabinete do meu avô, que estava tal qual ele o tinha deixado. Reparei numa foto a preto e branco de um jovem fardado, autografada, e perguntei quem era. O meu pai disse-me que era uma foto do rei D. Manuel II. E quis saber porquê. Vim então a saber que o meu avô era monárquico. Anti-salazarista e monárquico. Virou as costas à causa monárquica e apoiou o Humberto Delgado e prestou serviços ao Governo americano durante a Segunda Guerra Mundial. Tinha uma carta de agradecimento de um presidente americano e tudo." A vida e as escolhas de Manuel António Vilela, que teria hoje 110 anos, levaram assim o neto a interessar-se pela causa monárquica e a conciliá-la, tal como o pai, Joaquim Domingos Monteiro, que morreu há 12 anos, com a militância socialista. Uma aliança que admite não muito evidente, mas assumida no acto de inscrição no PS: "Quando me filiei, há 16 anos, disseram-me que era um regime tão válido como o republicano, porque também há democracias monárquicas."
Precisamente, a democracia britânica costuma ser apontada como a mais antiga em vigor, apesar de, como sublinha Rui Monteiro, a casa de Windsor ser, na Europa, a que carece de mais legitimidade democrática. "Nas monarquias nórdicas, quando morre um rei, o regime é referendado, e o povo é auscultado - e com votações muito expressivas a favor da manutenção da democracia. E em Espanha houve um referendo à Constituição e, portanto, à monarquia." Aliás, a família real que mais admira é a espanhola. "A britânica tem mais poder, mas com uma origem mais obscura, funda-se na Magna Carta, que tem aspectos completamente anacrónicos, como o de o rei ser o chefe da Igreja Anglicana, coisa que acho que vai ter de ser modificada em breve, porque não faz sentido. E até há pouco tempo os príncipes não podiam casar-se com católicos - isso foi alterado no Governo de Gordon Brown."
Muito mais mudou, como é óbvio, na casa de Windsor. Leis não escritas como a da obrigatoriedade de herdeiros do trono se casarem com membros de outras casas reais ou pelo menos com aristocratas caíram no Reino Unido muitos anos após serem rasgadas por outras monarquias europeias, a começar pelas nórdicas. E se aquando do casamento de Carlos e Diana a "virgindade" desta última era um factor primordial, foi possível já a Carlos, após a escandalosa e trágica novela que foi o seu primeiro casamento, casar-se com uma divorciada (Camilla Parker-Bowles, em 2005, um ano depois de o herdeiro do trono de Espanha, Felipe de Borbon, se unir à também divorciada, e "plebeia", Letícia Ortiz), e a William assumir publicamente a sua convivência carnal com a "plebeia" Kate Middleton.
A comparativa lentidão da casa real britânica - apesar do furacão Diana (que, já agora, era não só aristocrata como com pergaminhos mais "britânicos" e "antigos" que o marido) - naquilo que se pode denominar de adaptação aos valores e costumes hodiernos é explicada por Mendo Castro Henriques, 56 anos, académico e actual presidente do Instituto da Democracia Portuguesa (uma organização criada em 2007 em relação com a localização do novo aeroporto de Lisboa, cujo presidente "de honra" é Duarte Pio e da qual Rui Monteiro também faz parte) com um paradoxo. "Os britânicos fizeram as reformas políticas antes dos outros: foram os primeiros na Europa a consignar poderes mais simbólicos ao chefe de Estado e a transferir a sede da soberania para o Parlamento. E assim acabam por manter mais tradicionalismo. É uma regra de bolso da história que quanto mais cedo foi a revolução melhor se aliam as tradições e os aspectos revolucionários. Como a revolução britânica é a primeira de todas permitiu criar um compromisso em vários aspectos." Lembrando que a Inglaterra teve uma república no século XVII (a república de Cromwell, que termina em 1650), antes da Revolução Francesa, Mendo Castro Henriques, formado em Filosofia e actualmente docente na Universidade Católica, aponta o facto de a casa de Windsor ser de origem germânica, descendendo da casa de Hanôver (hoje parte da Alemanha). Os Hanôver subiram ao trono após a dinastia dos Stuarts, que reinou depois do fim da experiência republicana, ter chegado ao fim por falta de herdeiros. "Os ingleses acharam bom ter monarcas constitucionais que não se metessem muito e foram buscar aquele casal estrangeiro [na verdade, o primeiro rei da casa de Hanôver foi para Inglaterra sem rainha, já que tinha a ex-mulher - o casamento foi anulado -, Sofia Doroteia, em prisão domiciliária por supostamente o ter abandonado; uma história muito interessante, que mete até um homicídio, o do alegado amante de Sofia, às ordens do rei e do seu pai, ecoando a de Inês de Castro] em 1714." Jorge I de Hanôver foi pouco popular, em parte por se dizer que não sabia falar inglês, mas certo é que aceitou passar de rei absoluto em Hanôver para monarca simbólico num regime parlamentar na Inglaterra. A dinastia Hanôver terminou formalmente no Reino Unido com a ascensão ao trono de Eduardo VII, filho de Vitória e do seu primo direito Alberto Saxe-Coburgo-Gota, em 1901. Isabel II é bisneta de Eduardo e faz parte da mesma dinastia, mas o nome da mesma foi alterado em 1917 por Jorge V, avô da rainha, durante a guerra com a Alemanha, devido ao facto de se tratar de um apelido germânico.
Mendo Henriques, que prefere definir-se como "realista" (do inglês royalist) que como "monárquico" e que considera ser essa a melhor forma de defender a res publica, "numa instituição reconhecida pela cultura e pela história", cita Lafayette, numa frase retomada por Passos Manuel - "A monarquia é o trono rodeado por instituições republicanas" - para definir a sua particular forma de ver os dois regimes como não conflituantes. Quanto ao devir das monarquias europeias, e nomeadamente da britânica, considera que cada uma é um caso. E que se as nórdicas estão de pedra e cal - "muito entrosadas nas vidas dos países" -, o momento das sucessões, na britânica e na espanhola, "pode abrir clivagens". Certo é que Isabel II reinará provavelmente mais uns bons anos. E que ninguém pode prever o que a progressiva diluição do "sangue azul" e da sua noção agregada de privilégio e distanciamento fará às monarquias. Afinal, se a legitimidade do trono advém de uma ideia de distinção conferida por via familiar e por um estrito sentido do dever que implica ver o monarca e a sua vida, incluindo a privada, como pertença do povo, que fica disso quando as famílias reais se parecem cada vez mais, no sangue e nos costumes, com famílias normais?
Fernanda Câncio entrevista Rui Monteiro e Mendo Henriques
DN, 23/04/2011
Precisamente, a democracia britânica costuma ser apontada como a mais antiga em vigor, apesar de, como sublinha Rui Monteiro, a casa de Windsor ser, na Europa, a que carece de mais legitimidade democrática. "Nas monarquias nórdicas, quando morre um rei, o regime é referendado, e o povo é auscultado - e com votações muito expressivas a favor da manutenção da democracia. E em Espanha houve um referendo à Constituição e, portanto, à monarquia." Aliás, a família real que mais admira é a espanhola. "A britânica tem mais poder, mas com uma origem mais obscura, funda-se na Magna Carta, que tem aspectos completamente anacrónicos, como o de o rei ser o chefe da Igreja Anglicana, coisa que acho que vai ter de ser modificada em breve, porque não faz sentido. E até há pouco tempo os príncipes não podiam casar-se com católicos - isso foi alterado no Governo de Gordon Brown."
Muito mais mudou, como é óbvio, na casa de Windsor. Leis não escritas como a da obrigatoriedade de herdeiros do trono se casarem com membros de outras casas reais ou pelo menos com aristocratas caíram no Reino Unido muitos anos após serem rasgadas por outras monarquias europeias, a começar pelas nórdicas. E se aquando do casamento de Carlos e Diana a "virgindade" desta última era um factor primordial, foi possível já a Carlos, após a escandalosa e trágica novela que foi o seu primeiro casamento, casar-se com uma divorciada (Camilla Parker-Bowles, em 2005, um ano depois de o herdeiro do trono de Espanha, Felipe de Borbon, se unir à também divorciada, e "plebeia", Letícia Ortiz), e a William assumir publicamente a sua convivência carnal com a "plebeia" Kate Middleton.
A comparativa lentidão da casa real britânica - apesar do furacão Diana (que, já agora, era não só aristocrata como com pergaminhos mais "britânicos" e "antigos" que o marido) - naquilo que se pode denominar de adaptação aos valores e costumes hodiernos é explicada por Mendo Castro Henriques, 56 anos, académico e actual presidente do Instituto da Democracia Portuguesa (uma organização criada em 2007 em relação com a localização do novo aeroporto de Lisboa, cujo presidente "de honra" é Duarte Pio e da qual Rui Monteiro também faz parte) com um paradoxo. "Os britânicos fizeram as reformas políticas antes dos outros: foram os primeiros na Europa a consignar poderes mais simbólicos ao chefe de Estado e a transferir a sede da soberania para o Parlamento. E assim acabam por manter mais tradicionalismo. É uma regra de bolso da história que quanto mais cedo foi a revolução melhor se aliam as tradições e os aspectos revolucionários. Como a revolução britânica é a primeira de todas permitiu criar um compromisso em vários aspectos." Lembrando que a Inglaterra teve uma república no século XVII (a república de Cromwell, que termina em 1650), antes da Revolução Francesa, Mendo Castro Henriques, formado em Filosofia e actualmente docente na Universidade Católica, aponta o facto de a casa de Windsor ser de origem germânica, descendendo da casa de Hanôver (hoje parte da Alemanha). Os Hanôver subiram ao trono após a dinastia dos Stuarts, que reinou depois do fim da experiência republicana, ter chegado ao fim por falta de herdeiros. "Os ingleses acharam bom ter monarcas constitucionais que não se metessem muito e foram buscar aquele casal estrangeiro [na verdade, o primeiro rei da casa de Hanôver foi para Inglaterra sem rainha, já que tinha a ex-mulher - o casamento foi anulado -, Sofia Doroteia, em prisão domiciliária por supostamente o ter abandonado; uma história muito interessante, que mete até um homicídio, o do alegado amante de Sofia, às ordens do rei e do seu pai, ecoando a de Inês de Castro] em 1714." Jorge I de Hanôver foi pouco popular, em parte por se dizer que não sabia falar inglês, mas certo é que aceitou passar de rei absoluto em Hanôver para monarca simbólico num regime parlamentar na Inglaterra. A dinastia Hanôver terminou formalmente no Reino Unido com a ascensão ao trono de Eduardo VII, filho de Vitória e do seu primo direito Alberto Saxe-Coburgo-Gota, em 1901. Isabel II é bisneta de Eduardo e faz parte da mesma dinastia, mas o nome da mesma foi alterado em 1917 por Jorge V, avô da rainha, durante a guerra com a Alemanha, devido ao facto de se tratar de um apelido germânico.
Mendo Henriques, que prefere definir-se como "realista" (do inglês royalist) que como "monárquico" e que considera ser essa a melhor forma de defender a res publica, "numa instituição reconhecida pela cultura e pela história", cita Lafayette, numa frase retomada por Passos Manuel - "A monarquia é o trono rodeado por instituições republicanas" - para definir a sua particular forma de ver os dois regimes como não conflituantes. Quanto ao devir das monarquias europeias, e nomeadamente da britânica, considera que cada uma é um caso. E que se as nórdicas estão de pedra e cal - "muito entrosadas nas vidas dos países" -, o momento das sucessões, na britânica e na espanhola, "pode abrir clivagens". Certo é que Isabel II reinará provavelmente mais uns bons anos. E que ninguém pode prever o que a progressiva diluição do "sangue azul" e da sua noção agregada de privilégio e distanciamento fará às monarquias. Afinal, se a legitimidade do trono advém de uma ideia de distinção conferida por via familiar e por um estrito sentido do dever que implica ver o monarca e a sua vida, incluindo a privada, como pertença do povo, que fica disso quando as famílias reais se parecem cada vez mais, no sangue e nos costumes, com famílias normais?
Fernanda Câncio entrevista Rui Monteiro e Mendo Henriques
DN, 23/04/2011
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Sábado, Fevereiro 12, 2011
A Teoria e a Prática
Na teoria a república é mais justa e mais democrática que a monarquia e, creio, a grande maioria dos defensores da república agarram-se a essa ideia teórica. Mas, se nos agarrarmos a ideias teóricas, também temos de dizer que o comunismo é uma ideia fantástica e muito mais democrática que todas as outras ideologias políticas. E é, teoricamente é. A ideia de uma sociedade igualitária, sem classes, na qual cada um trabalha, igualmente, para o bem comum, é uma ideia linda! Mas não funciona. A URSS, Cuba, China são bons exemplos da falta de democracia, da opressão, pobreza e violência (física e psicológica) a que os povos estão sujeitos na busca da “perfeição democrática” dos seus ditadores comunistas.
Ao contrário do comunismo, no entanto, a república não é um caso de tão grave falhanço, provas disso são repúblicas como a Finlândia ou a Alemanha que funcionam lindamente. Ou os Estados Unidos que, mesmo com falhas, têm o regime que ao seu povo se adequa. E é nesta adequação do povo que está a chave do sucesso. Cada povo, seu regime. Cada povo com sua história.
Se me perguntarem se, teoricamente, eu acho que é mais justo votar-se em alguém do que ver alguém aclamado? Acho que é muito mais justo votar! Sem dúvida! Mas, em Portugal, não funciona na prática. É muito bonito, é uma ideia fantástica, mas não já provou, bem provado, que, no nosso cantinho à beira mar, não funciona!
Então, qual a solução? A questão de os monárquicos mencionarem a monarquia como solução está no facto de 100 anos de república (com 3 repúblicas distintas) já provaram que, a república, não funciona. E, se nos dermos ao trabalho de ler livros (não escolares) da história de Portugal, apercebemo-nos que, durante a monarquia constitucional, Portugal, mesmo estando numa crise devido a uma série de factores externos e internos (interno esse sendo o facto de sermos constitucional há pouco tempo) estava a crescer. Portugal estava na média da Europa e a crescer, a nível financeiro e democrático e continuava português. Seguia uma governação que era a nossa identidade, e não uma, como agora, que se identifica com os franceses e não com os portugueses. Veio a 1ª República e começámos numa decadência brutal a todos os níveis (democráticos, de valores, financeiro). A 2ª república levantou-nos a nível financeiro e recuperou alguns valores, mas democraticamente batemos no fundo e em termos de patriotismo foi-se perdendo mais. A 3ª república é uma podridão! Fora o "sufrágio universal", que por si só não constrói a democracia, e ao qual as pessoas nem ligam por aí além, basta ver os números da abstenção, não temos mais nada. Financeiramente estamos na cauda da Europa, democraticamente também, a nível de valores nem falar, a nível de patriotismo só piora. Foi aqui que chegámos em 100 anos. Desculpabilizar a república é atirar areia para os olhos, negar o nosso passado e permanecer no erro.
Se a monarquia é perfeita? Não! Claro que não é. E não irão ouvir nenhum monárquico, minimamente Realista, a afirmar o contrário. No entanto, segundo o índice de países com melhores níveis democráticos, social e de estabilidade, os 2 primeiros são monarquias e nos 10 primeiros, 6 deles são monarquias. Claro que também os há com falhas, mas se formos comparar com a república, esta última perde e em muito (e se comparássemos a nível percentual então a diferença era ainda mais brutal, pois existem muito mais repúblicas que monarquias). Mas cada país sua sentença. Jamais eu diria que a monarquia funcionaria, por exemplo, nos Estados Unidos, assim como a república não ia funcionar no Reino Unido. Portugal é mais monárquico na forma como funciona, na mentalidade, na "portugalidade", do que republicano. Infelizmente foi feita uma grande "lavagem cerebral" aos portugueses durante 1 século e as pessoas, mesmo olhando, verificando que isto está mal (muito mal), vendo que até esteve melhor na monarquia, percebendo que a estabilidade política na monarquia é muito maior, etc., não conseguem desbloquear o preconceito contra a ideia monárquica. Eu desbloqueei. Como afirmei anteriormente, teoricamente a república é muito mais justa, assim como por exemplo, teoricamente o comunismo é fantástico, na prática não funcionam, enão nos podemos seguir por ideias teóricas, temos de perceber o que funciona na prática e libertarmo-nos de preconceitos para levar as coisas a bom porto.
Creio que o problema essencial dos portugueses está na falta de "sermos portugueses", na falta de orgulho, na falta de interesse e na falta de patriotismo. Isso afecta a nossa forma de ser e os nossos valores (entrando também estes em falta). Todas estas faltas afectam o estado democrático e a crença no mesmo. A meu ver faltam-nos líderes. Faltam-nos símbolos nos quais nos apoiemos e que nos unam num só objectivo e no amor à pátria. Uma coisa leva à outra. Um povo seguro e orgulhoso de si não deixa que o pisem, não fica desmotivado e luta pelo que quer. Isso, eu creio, tenho a convicção, que era mais fácil alcançar com um rei imparcial, que funcionava como símbolo, líder e união, do que com um presidente tão parcial como qualquer outro político, porque enquanto um presidente, por exemplo social-democrata, tem tendência de beneficiar sempre o PSD, um socialista sempre o PS não permitindo uma imparcialidade política, o rei tem essa imparcialidade e o que influencia é por crença pessoal e não por dever alguma coisa a alguém. Porque ele já nasceu rei, não chegou lá com favores de ninguém. É-o naturalmente e, naturalmente, e sem interesses, exerce essa função.
Todos concordamos que isto está mal mas, dentro da república, qual a saída que encontramos? Outra revolução? Eu francamente acho que nos faria mal outra revolução porque os problemas não se resolvem de armas na mão (isso é como tratar uma perna partida com analgésico...) ...Pela democracia? E como? Votando em quê e em quem? Alertando e consciencializando os 90% de portugueses que se estão a borrifar e à espera que "o outro" solucione as coisas? - Sim, este seria o caminho - alertar e consciencializar esses 90% de apáticos, desmotivados, desmoralizados, desportuguesados que cá andam. E como fazemos isso? Como fazemos isso na nossa actual república?
Não podemos esperar 20 anos para que as consciências despertem, Portugal não tem 20 anos. Portugal tem 4 ou 5 (se tiver). É neste contexto que o facto de se alterar a constituição permitindo um referendo para a monarquia pode, rapidamente, consciencializar as pessoas. O facto de aparecer um referendo (e nem é preciso que a monarquia ganhe e se mude de regime), pode fazer com que a mente apática de grande parte das pessoas desperte. Seja porque não querem a monarquia e, como tal, têm de discutir o que está mal na república e exigir essa mudança, seja porque querem a monarquia e, como tal, vão escarafunchar no que está mal na república para mudar mentalidades. Seja por que motivo for era bom um referendo, e era bom que a comunicação social desse mais voz aos monárquicos porque eles, aparentemente, são os únicos que não se limitam a levantar a voz para criticar, também a levantam para apresentar soluções. Essa voz devia ser ouvida, mas ouvida provocando o "medo" republicano e a esperança monárquica. Quer se mudasse ou não, esse temor ou esperança de que, o que temos pode não ser eterno, dariam novo folgo à mentalidade. Agora, o outro caminho que vejo é o silencioso. O daqueles que, não conseguindo mudar as mentalidades à velocidade necessária, agarram em armas e tomam o poder pela ditadura e só nos enterram mais (porque, eventualmente, a apatia e o "desaportuguesamento" vão continuar).
Os portugueses, na verdade, já não se identificam com o que temos, mas também têm medo da monarquia porque lhes fizeram imagens de monstros que vivem à custa do povo em palácios e, como tal, também não se identificam com ela (apesar de ser isso o que, na verdade, têm, mas na república). Estamos com uma crise imensa de identidade e não creio que o caminho seja permanecer aqui a tentar mentalizar as pessoas, e sim pegar numa fórmula tipicamente portuguesa e mostrar que é possível ser patriota, ter valores e continuar em democracia. Parece-me mais difícil mentalizar as pessoas disso pelo caminho republicano (completamente descredibilizado) do que pelo monárquico. Basta que percebam que a monarquia não é absolutista. Porque acredito que, neste momento, o Portugal descredibilizado facilmente aceitaria outro “Salazar” e custa-me imenso perceber que as pessoas mais facilmente aceitem o caminho da ditadura, do que da monarquia constitucional democrática.
Vejo a monarquia como a única actual saída democrática que permite a mudança de mentalidades e a restauração dos valores tão necessária à nossa sociedade, porque, ao haver a mudança iria haver uma reflexão do porquê do povo ter optado pela monarquia e, logo aí, a mentalidade ia mudando.
Não é para meu proveito pessoal que eu apoio uma monarquia, porque nada ganharei, mais do que o resto do país com isso, é porque, pensando imparcialmente no bem do país, revendo a sua história, tenho de baixar os braços e dizer: A república não funciona e vai continuar a não funcionar! Se queremos salvar o país desta degradação permanente temos de largar os preconceitos que existem, e tantos, relativamente à monarquia e aceitar que esse é o único caminho possível a seguir se queremos ter alguma hipótese.
Sara Jofre
Ao contrário do comunismo, no entanto, a república não é um caso de tão grave falhanço, provas disso são repúblicas como a Finlândia ou a Alemanha que funcionam lindamente. Ou os Estados Unidos que, mesmo com falhas, têm o regime que ao seu povo se adequa. E é nesta adequação do povo que está a chave do sucesso. Cada povo, seu regime. Cada povo com sua história.
Se me perguntarem se, teoricamente, eu acho que é mais justo votar-se em alguém do que ver alguém aclamado? Acho que é muito mais justo votar! Sem dúvida! Mas, em Portugal, não funciona na prática. É muito bonito, é uma ideia fantástica, mas não já provou, bem provado, que, no nosso cantinho à beira mar, não funciona!
Então, qual a solução? A questão de os monárquicos mencionarem a monarquia como solução está no facto de 100 anos de república (com 3 repúblicas distintas) já provaram que, a república, não funciona. E, se nos dermos ao trabalho de ler livros (não escolares) da história de Portugal, apercebemo-nos que, durante a monarquia constitucional, Portugal, mesmo estando numa crise devido a uma série de factores externos e internos (interno esse sendo o facto de sermos constitucional há pouco tempo) estava a crescer. Portugal estava na média da Europa e a crescer, a nível financeiro e democrático e continuava português. Seguia uma governação que era a nossa identidade, e não uma, como agora, que se identifica com os franceses e não com os portugueses. Veio a 1ª República e começámos numa decadência brutal a todos os níveis (democráticos, de valores, financeiro). A 2ª república levantou-nos a nível financeiro e recuperou alguns valores, mas democraticamente batemos no fundo e em termos de patriotismo foi-se perdendo mais. A 3ª república é uma podridão! Fora o "sufrágio universal", que por si só não constrói a democracia, e ao qual as pessoas nem ligam por aí além, basta ver os números da abstenção, não temos mais nada. Financeiramente estamos na cauda da Europa, democraticamente também, a nível de valores nem falar, a nível de patriotismo só piora. Foi aqui que chegámos em 100 anos. Desculpabilizar a república é atirar areia para os olhos, negar o nosso passado e permanecer no erro.
Se a monarquia é perfeita? Não! Claro que não é. E não irão ouvir nenhum monárquico, minimamente Realista, a afirmar o contrário. No entanto, segundo o índice de países com melhores níveis democráticos, social e de estabilidade, os 2 primeiros são monarquias e nos 10 primeiros, 6 deles são monarquias. Claro que também os há com falhas, mas se formos comparar com a república, esta última perde e em muito (e se comparássemos a nível percentual então a diferença era ainda mais brutal, pois existem muito mais repúblicas que monarquias). Mas cada país sua sentença. Jamais eu diria que a monarquia funcionaria, por exemplo, nos Estados Unidos, assim como a república não ia funcionar no Reino Unido. Portugal é mais monárquico na forma como funciona, na mentalidade, na "portugalidade", do que republicano. Infelizmente foi feita uma grande "lavagem cerebral" aos portugueses durante 1 século e as pessoas, mesmo olhando, verificando que isto está mal (muito mal), vendo que até esteve melhor na monarquia, percebendo que a estabilidade política na monarquia é muito maior, etc., não conseguem desbloquear o preconceito contra a ideia monárquica. Eu desbloqueei. Como afirmei anteriormente, teoricamente a república é muito mais justa, assim como por exemplo, teoricamente o comunismo é fantástico, na prática não funcionam, enão nos podemos seguir por ideias teóricas, temos de perceber o que funciona na prática e libertarmo-nos de preconceitos para levar as coisas a bom porto.
Creio que o problema essencial dos portugueses está na falta de "sermos portugueses", na falta de orgulho, na falta de interesse e na falta de patriotismo. Isso afecta a nossa forma de ser e os nossos valores (entrando também estes em falta). Todas estas faltas afectam o estado democrático e a crença no mesmo. A meu ver faltam-nos líderes. Faltam-nos símbolos nos quais nos apoiemos e que nos unam num só objectivo e no amor à pátria. Uma coisa leva à outra. Um povo seguro e orgulhoso de si não deixa que o pisem, não fica desmotivado e luta pelo que quer. Isso, eu creio, tenho a convicção, que era mais fácil alcançar com um rei imparcial, que funcionava como símbolo, líder e união, do que com um presidente tão parcial como qualquer outro político, porque enquanto um presidente, por exemplo social-democrata, tem tendência de beneficiar sempre o PSD, um socialista sempre o PS não permitindo uma imparcialidade política, o rei tem essa imparcialidade e o que influencia é por crença pessoal e não por dever alguma coisa a alguém. Porque ele já nasceu rei, não chegou lá com favores de ninguém. É-o naturalmente e, naturalmente, e sem interesses, exerce essa função.
Todos concordamos que isto está mal mas, dentro da república, qual a saída que encontramos? Outra revolução? Eu francamente acho que nos faria mal outra revolução porque os problemas não se resolvem de armas na mão (isso é como tratar uma perna partida com analgésico...) ...Pela democracia? E como? Votando em quê e em quem? Alertando e consciencializando os 90% de portugueses que se estão a borrifar e à espera que "o outro" solucione as coisas? - Sim, este seria o caminho - alertar e consciencializar esses 90% de apáticos, desmotivados, desmoralizados, desportuguesados que cá andam. E como fazemos isso? Como fazemos isso na nossa actual república?
Não podemos esperar 20 anos para que as consciências despertem, Portugal não tem 20 anos. Portugal tem 4 ou 5 (se tiver). É neste contexto que o facto de se alterar a constituição permitindo um referendo para a monarquia pode, rapidamente, consciencializar as pessoas. O facto de aparecer um referendo (e nem é preciso que a monarquia ganhe e se mude de regime), pode fazer com que a mente apática de grande parte das pessoas desperte. Seja porque não querem a monarquia e, como tal, têm de discutir o que está mal na república e exigir essa mudança, seja porque querem a monarquia e, como tal, vão escarafunchar no que está mal na república para mudar mentalidades. Seja por que motivo for era bom um referendo, e era bom que a comunicação social desse mais voz aos monárquicos porque eles, aparentemente, são os únicos que não se limitam a levantar a voz para criticar, também a levantam para apresentar soluções. Essa voz devia ser ouvida, mas ouvida provocando o "medo" republicano e a esperança monárquica. Quer se mudasse ou não, esse temor ou esperança de que, o que temos pode não ser eterno, dariam novo folgo à mentalidade. Agora, o outro caminho que vejo é o silencioso. O daqueles que, não conseguindo mudar as mentalidades à velocidade necessária, agarram em armas e tomam o poder pela ditadura e só nos enterram mais (porque, eventualmente, a apatia e o "desaportuguesamento" vão continuar).
Os portugueses, na verdade, já não se identificam com o que temos, mas também têm medo da monarquia porque lhes fizeram imagens de monstros que vivem à custa do povo em palácios e, como tal, também não se identificam com ela (apesar de ser isso o que, na verdade, têm, mas na república). Estamos com uma crise imensa de identidade e não creio que o caminho seja permanecer aqui a tentar mentalizar as pessoas, e sim pegar numa fórmula tipicamente portuguesa e mostrar que é possível ser patriota, ter valores e continuar em democracia. Parece-me mais difícil mentalizar as pessoas disso pelo caminho republicano (completamente descredibilizado) do que pelo monárquico. Basta que percebam que a monarquia não é absolutista. Porque acredito que, neste momento, o Portugal descredibilizado facilmente aceitaria outro “Salazar” e custa-me imenso perceber que as pessoas mais facilmente aceitem o caminho da ditadura, do que da monarquia constitucional democrática.
Vejo a monarquia como a única actual saída democrática que permite a mudança de mentalidades e a restauração dos valores tão necessária à nossa sociedade, porque, ao haver a mudança iria haver uma reflexão do porquê do povo ter optado pela monarquia e, logo aí, a mentalidade ia mudando.
Não é para meu proveito pessoal que eu apoio uma monarquia, porque nada ganharei, mais do que o resto do país com isso, é porque, pensando imparcialmente no bem do país, revendo a sua história, tenho de baixar os braços e dizer: A república não funciona e vai continuar a não funcionar! Se queremos salvar o país desta degradação permanente temos de largar os preconceitos que existem, e tantos, relativamente à monarquia e aceitar que esse é o único caminho possível a seguir se queremos ter alguma hipótese.
Sara Jofre
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Terça-feira, Fevereiro 08, 2011
Á Volta do Voto - Entrevista ao Padre Gonçalo Portocarrero de Almada
1. Nas vésperas das eleições presidenciais, assinou dois artigos de opinião que foram entendidos como uma tentativa de influenciar o voto dos cristãos.
P.GPA – Foram então muito mal entendidos, porque tive o cuidado, precisamente para não dar azo a esse tipo de leituras, de não referir nenhuma candidatura, nenhum nome de nenhum candidato, nem nenhum partido ou força política. Também não abordei questões de política partidária, nem emiti qualquer juízo sobre matéria opinável.
2. Mas a alusão ao voto inútil e ao voto em consciência não era, de algum modo, um convite a não votar na candidatura presidencial vencedora?
P. GPA – Era, sobretudo, uma chamada de atenção contra o relativismo a que necessariamente se apela quando se recorre ao argumento do voto útil, e um apelo para a necessidade de votar em consciência. Confesso que me repugna a impunidade política dominante e uma atitude indulgente dos eleitores significa uma certa cumplicidade com essas incoerências.
3. Mas isso não implica um juízo moral dos candidatos?
P. GPA – Enquanto pessoas, é óbvio que ninguém os deve julgar, mas os seus actos políticos podem e devem ser objecto de apreciação moral. Se um candidato defraudar sistematicamente as legítimas expectativas dos seus eleitores e esse facto não tiver quaisquer consequências, é caso para dizer que, em política, o crime compensa. É esta perversa lógica que me pareceu importante denunciar.
4. Mas é evidente que os artigos desfavoreciam a candidatura presidencial que veio a ganhar as eleições, embora com um resultado muito inferior ao total das abstenções.
P.GPA – Pelo contrário, porque em vez de considerar em pé de igualdade todas as candidaturas, afirmei sempre que, se algumas não seriam de modo nenhum admissíveis para um cristão coerente, outras, como a que veio a ganhar, poderiam ser uma opção lícita, em virtude do princípio do mal menor, para quem se revê na Doutrina Social da Igreja.
5. Então, como explica algum mal-estar suscitado por esses seus artigos de opinião?
P. GPA – Não creio que haja motivo para essa admiração se tivermos presente que a pregação de Jesus Cristo também causava escândalo, sobretudo entre os fariseus e os pusilânimes. Hoje, seria preciso acrescentar também os inimigos da liberdade e da Igreja.
6. Como assim?!
P. GPA – O voto dos cristãos é sempre apetecível, nomeadamente num país cuja matriz cultural é essencialmente cristã. Por isso, há sempre quem queira apropriar-se desse voto, recorrendo ao argumento do «voto útil»: os cristãos devem votar e devem votar bem, isto é, votar na candidatura menos má.
7. Mas, não é correcto este argumento?
P. GPA – Claro que não! Ninguém, mesmo sendo católico, é dono do voto dos cristãos, nem a Igreja pode ficar refém de nenhuma força ou partido político. Que os fiéis possam votar na candidatura menos má não quer dizer que estejam obrigados a votar nela, porque também é moralmente legítimo o voto em outras candidaturas, desde que compatíveis com a fé cristã, bem como a abstenção, o voto em branco ou o voto nulo.
8. De todos os modos, uma tal atitude parece, em termos políticos, pouco razoável e pouco ou nada construtiva.
P. GPA – Talvez, mas em termos morais, que são os únicos que me interessam, é importante defender a liberdade da Igreja e a dos fiéis nestas matérias. Acho curioso que os mesmos políticos que apelaram energicamente à participação no sufrágio e censuraram, com azedume, a abstenção, foram também os que impediram essa mesma participação, quando excluíram a possibilidade de um referendo sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, que dezenas de milhares de eleitores tinham pedido.
9. Mas, não lhe parece que se trata de uma questão eminentemente política?
P. GPA – Antes de o ser, é ética e pastoral. Depois de publicados os artigos que referiu, muitos fiéis confidenciaram-me que tinham ficado muito aliviados nas suas consciências, porque erradamente pensavam que estavam obrigados a votar e a votar útil, apesar disso lhes parecer uma violência e uma falsidade, na medida em que não se identificavam minimamente com nenhuma candidatura. É missão dos pastores esclarecer as almas dos fiéis sobre estas questões e defender a sua liberdade de consciência.
10. De todos os modos, não teria sido mais conveniente que esse esclarecimento não tivesse ocorrido em plena campanha eleitoral?
P. GPA – Desculpe-me a ingenuidade, mas pensava que a campanha eleitoral servia precisamente para abordar estes assuntos. É recorrente essa tentativa de amordaçar a Igreja, com a desculpa de que se não deve intrometer em política. Nas vésperas do referendo do aborto, também não faltou quem quisesse silenciar a Igreja, mas os pastores devem pregar a vida nas vésperas dos referendos, nos dias dos referendos e nos dias seguintes aos referendos, porque a nossa agenda é o Evangelho e não o calendário político ou eleitoral.
P.GPA – Foram então muito mal entendidos, porque tive o cuidado, precisamente para não dar azo a esse tipo de leituras, de não referir nenhuma candidatura, nenhum nome de nenhum candidato, nem nenhum partido ou força política. Também não abordei questões de política partidária, nem emiti qualquer juízo sobre matéria opinável.
2. Mas a alusão ao voto inútil e ao voto em consciência não era, de algum modo, um convite a não votar na candidatura presidencial vencedora?
P. GPA – Era, sobretudo, uma chamada de atenção contra o relativismo a que necessariamente se apela quando se recorre ao argumento do voto útil, e um apelo para a necessidade de votar em consciência. Confesso que me repugna a impunidade política dominante e uma atitude indulgente dos eleitores significa uma certa cumplicidade com essas incoerências.
3. Mas isso não implica um juízo moral dos candidatos?
P. GPA – Enquanto pessoas, é óbvio que ninguém os deve julgar, mas os seus actos políticos podem e devem ser objecto de apreciação moral. Se um candidato defraudar sistematicamente as legítimas expectativas dos seus eleitores e esse facto não tiver quaisquer consequências, é caso para dizer que, em política, o crime compensa. É esta perversa lógica que me pareceu importante denunciar.
4. Mas é evidente que os artigos desfavoreciam a candidatura presidencial que veio a ganhar as eleições, embora com um resultado muito inferior ao total das abstenções.
P.GPA – Pelo contrário, porque em vez de considerar em pé de igualdade todas as candidaturas, afirmei sempre que, se algumas não seriam de modo nenhum admissíveis para um cristão coerente, outras, como a que veio a ganhar, poderiam ser uma opção lícita, em virtude do princípio do mal menor, para quem se revê na Doutrina Social da Igreja.
5. Então, como explica algum mal-estar suscitado por esses seus artigos de opinião?
P. GPA – Não creio que haja motivo para essa admiração se tivermos presente que a pregação de Jesus Cristo também causava escândalo, sobretudo entre os fariseus e os pusilânimes. Hoje, seria preciso acrescentar também os inimigos da liberdade e da Igreja.
6. Como assim?!
P. GPA – O voto dos cristãos é sempre apetecível, nomeadamente num país cuja matriz cultural é essencialmente cristã. Por isso, há sempre quem queira apropriar-se desse voto, recorrendo ao argumento do «voto útil»: os cristãos devem votar e devem votar bem, isto é, votar na candidatura menos má.
7. Mas, não é correcto este argumento?
P. GPA – Claro que não! Ninguém, mesmo sendo católico, é dono do voto dos cristãos, nem a Igreja pode ficar refém de nenhuma força ou partido político. Que os fiéis possam votar na candidatura menos má não quer dizer que estejam obrigados a votar nela, porque também é moralmente legítimo o voto em outras candidaturas, desde que compatíveis com a fé cristã, bem como a abstenção, o voto em branco ou o voto nulo.
8. De todos os modos, uma tal atitude parece, em termos políticos, pouco razoável e pouco ou nada construtiva.
P. GPA – Talvez, mas em termos morais, que são os únicos que me interessam, é importante defender a liberdade da Igreja e a dos fiéis nestas matérias. Acho curioso que os mesmos políticos que apelaram energicamente à participação no sufrágio e censuraram, com azedume, a abstenção, foram também os que impediram essa mesma participação, quando excluíram a possibilidade de um referendo sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo, que dezenas de milhares de eleitores tinham pedido.
9. Mas, não lhe parece que se trata de uma questão eminentemente política?
P. GPA – Antes de o ser, é ética e pastoral. Depois de publicados os artigos que referiu, muitos fiéis confidenciaram-me que tinham ficado muito aliviados nas suas consciências, porque erradamente pensavam que estavam obrigados a votar e a votar útil, apesar disso lhes parecer uma violência e uma falsidade, na medida em que não se identificavam minimamente com nenhuma candidatura. É missão dos pastores esclarecer as almas dos fiéis sobre estas questões e defender a sua liberdade de consciência.
10. De todos os modos, não teria sido mais conveniente que esse esclarecimento não tivesse ocorrido em plena campanha eleitoral?
P. GPA – Desculpe-me a ingenuidade, mas pensava que a campanha eleitoral servia precisamente para abordar estes assuntos. É recorrente essa tentativa de amordaçar a Igreja, com a desculpa de que se não deve intrometer em política. Nas vésperas do referendo do aborto, também não faltou quem quisesse silenciar a Igreja, mas os pastores devem pregar a vida nas vésperas dos referendos, nos dias dos referendos e nos dias seguintes aos referendos, porque a nossa agenda é o Evangelho e não o calendário político ou eleitoral.
in Voz da Verdade
Rev.º Padre Gonçalo Portocarrero de Almada
Domingo, Fevereiro 06, 2011
O Anonimato na Internet e as Regras de Conduta
A internet é o espaço propício para a liberdade de opinião e discussão livre. O problema é quando esta não é exercida correctamente. A questão é complexa, não é apenas de formação ou educação, é também da inexistência de exemplos: como se pode exigir civismo quando o próprio Parlamento, por exemplo, é tantas vezes palco de desrespeito, quando os líderes políticos recorrem ao ataque pessoal para atingir os seus objectivos, quando os altos dignatários da Nação não têm, muitas vezes, qualquer espécie de contenção no discurso?
Por outro lado, toda a gente tem direito à reserva da vida privada; por exemplo, não preciso saber se o Sr. José Sócrates, primeiro-ministro e governante do país, é casado ou não, o que faz nos Sábados à noite ou quem são os seus melhores amigos. E há outro direito, ainda mais sagrado, à privacidade da vida familiar; por exemplo, não preciso saber que o Sr. José Silva, autor de blogue e simpatizante bloquista, tem uma filha e como esta se chama, ou que idade tem. Há quem se defenda de abusos escondendo a identidade. Mas há muitas formas de anonimato: o anonimato de quem quer provocar e ficar impune perante o que quer que seja (e que é evidentemente absolutamente condenável); o anonimato de quem quer discutir e opinar saudavelmente, mas que não quer revelar a identidade (e que é uma opção respeitável); o anonimato de quem utiliza dados e informações, parcial ou totalmente falsos (e que é provavelmente a forma mais mesquinha e condenável de participação). Mas isto nem sempre é tão claro como parece. Eu próprio já fui acusado de anonimato quando nem me passava pela cabeça tal ideia: tinha um grupo no facebook sem privacidade, anunciado aqui e que era administrado por mim próprio, onde tinha os meus contactos; vários sites remetiam para este blogue, onde era apresentado o meu nome e a minha fotografia; muitos dos artigos e discussões nas caixas de comentários eram assinados. Mudei a minha forma de estar, mas acima de tudo foi uma oportunidade de aprender e conhecer os dois lados, respeitando os vários pontos de vista.
Estou na internet desde o seu início, por isso já passei por muito e aprendi ainda mais, com a observação e com os erros. Fiquei a saber, por exemplo, que a militância monárquica é completamente desrespeitada e troçada, vítima de preconceitos ridículos – o que, por si só, é um enorme obstáculo à tal liberdade de expressão e respeito pela diferença. Onde quer que se fale publicamente sobre a Monarquia, haverá sempre uma piadola, uma insinuação ou um insulto, não importando se é um ataque às crenças profundas e valores fundamentais de um ser humano. E isto é repugnante. Depois há que atentar à qualidade dos comentários e da discussão (por exemplo, a certa altura tive de colocar caixa de comentários moderada neste blogue). É natural que quando haja boa-vontade entre as partes, se consiga um proveitoso, frutífero e prazeroso diálogo ente todos os envolvidos. O problema é que isto é pouco frequente na internet e acontece mais em círculos fechados onde as pessoas se conhecem melhor e há maior controlo sobre os participantes. Normalmente, nas caixas de comentários e redes sociais, o que infelizmente acontece é a tentativa repetida de ironizar e provocar, principalmente através do humor duvidoso que apenas pretende humilhar o próximo. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra, mas toda a gente tem a sua sensibilidade natural e há muita coisa que me choca, quando a outros pode não provocar reacção. É certo que os utilizadores estão cada vez mais prevenidos para esta situação e que normalmente ignoram ou bloqueiam quem os aborrece. Mas quando tal não é possível há sempre grandes discussões com recurso ao palavrão e insulto fácil, onde é denominador comum a dificuldade de distinguir a vítima do agressor.
O amadurecimento da internet, das redes sociais e do bom senso nas regras de conduta, irá fazer com que os grupos de discussão e sociabilização sejam cada vez mais exclusivos, dificultando a participação universal dos utilizadores. Mas é o preço a pagar pelo equilíbrio entre a anarquia e a ditadura do controlo dos comportamentos on-line. O tempo trará mais justiça e solidariedade, mas é difícil exigir civismo e bom senso quando o ambiente familiar, profissional ou pessoal dos utilizadores é naturalmente conflituoso, exagerado e implicativo; é difícil pedir respeito quando as pessoas têm uma tendência natural para serem irónicas e sarcásticas; é muito complicado pedir que as pessoas sejam “aqui” o que não são “lá fora”. Mas isto não desculpa comportamentos, pelo contrário, já que a internet é uma continuação da vida real e não deve ser criada a ideia de um espaço virtual onde tudo é permitido. Mas tudo isto ainda é muito novo e há situações muito mais problemáticas que devem ser resolvidas em primeiro lugar, como o livre acesso a conteúdos chocantes, a universalidade e normalidade da banalização de desvios de comportamento sexual, o comércio ilegal e a ridicularização dos direitos de autor.
Por outro lado, toda a gente tem direito à reserva da vida privada; por exemplo, não preciso saber se o Sr. José Sócrates, primeiro-ministro e governante do país, é casado ou não, o que faz nos Sábados à noite ou quem são os seus melhores amigos. E há outro direito, ainda mais sagrado, à privacidade da vida familiar; por exemplo, não preciso saber que o Sr. José Silva, autor de blogue e simpatizante bloquista, tem uma filha e como esta se chama, ou que idade tem. Há quem se defenda de abusos escondendo a identidade. Mas há muitas formas de anonimato: o anonimato de quem quer provocar e ficar impune perante o que quer que seja (e que é evidentemente absolutamente condenável); o anonimato de quem quer discutir e opinar saudavelmente, mas que não quer revelar a identidade (e que é uma opção respeitável); o anonimato de quem utiliza dados e informações, parcial ou totalmente falsos (e que é provavelmente a forma mais mesquinha e condenável de participação). Mas isto nem sempre é tão claro como parece. Eu próprio já fui acusado de anonimato quando nem me passava pela cabeça tal ideia: tinha um grupo no facebook sem privacidade, anunciado aqui e que era administrado por mim próprio, onde tinha os meus contactos; vários sites remetiam para este blogue, onde era apresentado o meu nome e a minha fotografia; muitos dos artigos e discussões nas caixas de comentários eram assinados. Mudei a minha forma de estar, mas acima de tudo foi uma oportunidade de aprender e conhecer os dois lados, respeitando os vários pontos de vista.
Estou na internet desde o seu início, por isso já passei por muito e aprendi ainda mais, com a observação e com os erros. Fiquei a saber, por exemplo, que a militância monárquica é completamente desrespeitada e troçada, vítima de preconceitos ridículos – o que, por si só, é um enorme obstáculo à tal liberdade de expressão e respeito pela diferença. Onde quer que se fale publicamente sobre a Monarquia, haverá sempre uma piadola, uma insinuação ou um insulto, não importando se é um ataque às crenças profundas e valores fundamentais de um ser humano. E isto é repugnante. Depois há que atentar à qualidade dos comentários e da discussão (por exemplo, a certa altura tive de colocar caixa de comentários moderada neste blogue). É natural que quando haja boa-vontade entre as partes, se consiga um proveitoso, frutífero e prazeroso diálogo ente todos os envolvidos. O problema é que isto é pouco frequente na internet e acontece mais em círculos fechados onde as pessoas se conhecem melhor e há maior controlo sobre os participantes. Normalmente, nas caixas de comentários e redes sociais, o que infelizmente acontece é a tentativa repetida de ironizar e provocar, principalmente através do humor duvidoso que apenas pretende humilhar o próximo. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra, mas toda a gente tem a sua sensibilidade natural e há muita coisa que me choca, quando a outros pode não provocar reacção. É certo que os utilizadores estão cada vez mais prevenidos para esta situação e que normalmente ignoram ou bloqueiam quem os aborrece. Mas quando tal não é possível há sempre grandes discussões com recurso ao palavrão e insulto fácil, onde é denominador comum a dificuldade de distinguir a vítima do agressor.
O amadurecimento da internet, das redes sociais e do bom senso nas regras de conduta, irá fazer com que os grupos de discussão e sociabilização sejam cada vez mais exclusivos, dificultando a participação universal dos utilizadores. Mas é o preço a pagar pelo equilíbrio entre a anarquia e a ditadura do controlo dos comportamentos on-line. O tempo trará mais justiça e solidariedade, mas é difícil exigir civismo e bom senso quando o ambiente familiar, profissional ou pessoal dos utilizadores é naturalmente conflituoso, exagerado e implicativo; é difícil pedir respeito quando as pessoas têm uma tendência natural para serem irónicas e sarcásticas; é muito complicado pedir que as pessoas sejam “aqui” o que não são “lá fora”. Mas isto não desculpa comportamentos, pelo contrário, já que a internet é uma continuação da vida real e não deve ser criada a ideia de um espaço virtual onde tudo é permitido. Mas tudo isto ainda é muito novo e há situações muito mais problemáticas que devem ser resolvidas em primeiro lugar, como o livre acesso a conteúdos chocantes, a universalidade e normalidade da banalização de desvios de comportamento sexual, o comércio ilegal e a ridicularização dos direitos de autor.
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