Política à portuguesaÉ preocupante que as sondagens dêem vantagem aos socialistas, apesar do estado calamitoso a que as coisas chegaram. Estamos numa situação económica desastrosa, com grande parte das famílias a ficarem no limiar da pobreza, as indústrias do norte a fecharem e as empresas do sul a falirem – mas a culpa é da conjuntura mundial ou da União Europeia, tudo menos da incompetência do Governo. Estivemos recentemente quase em estado de sítio, com bens essenciais a faltarem nas prateleiras e sem combustível para fazer as máquinas funcionarem – mas a culpa é dos americanos ou dos árabes, dos camionistas ou das gasolineiras, tudo menos da pandilha do sr. Sócrates.
É verdade que a comunicação social se ajoelhou aos pés deste Governo, ainda antes da sua subida ao poder. E é verdade que a oposição é absolutamente estéril e estúpida. Mas só isso não explica o desânimo e o baixar dos braços. O nosso país está doente e só se parece erguer sempre que há jogos de futebol. Estamos tristes, falidos, cada vez mais ignorantes e distantes do resto da Europa. E o pior é que ninguém se parece importar com isso.
A única verdadeira oposição vem de dentro do próprio PS, o que só por si é sintomático de algo que não está bem. Os outros partidos alinham na mesma disposição em que se encontra o resto do país, senão vejamos:
a)
PSD. Caiu num buraco tão fundo que jamais se conseguirá reerguer. Submerso na lama das disputas pessoais e das vaidades individuais, é um pântano de rivalidades, ódios e invejas. A instabilidade social actual, provocada pela insegurança generalizada e a criminalidade violenta, seriam uma oportunidade de ouro para qualquer oposição minimamente eficiente. Como é possível se a única esperança visível para voltarem ao poder seja o bloco central? O facto de estarem há tantos anos longe do Governo entropeceu-lhes o cérebro – porque a verdade é mesmo essa: o PSD é uma besta de esferovite que se alimenta unicamente de poder.
b)
CDS. Inacreditável medíocridade. Seria a grande oportunidade desde a sua fundação, por poder ocupar o espaço recentemente desocupado à direita e centro-direita. Mas não conseguiu e o principa problema não é uma falha ideológica ou omissão de projectos. – O principal problema é a falta de valores humanos: de um lado a lamnetável pequenez de um discurso gasto e há muito falido; do outro, a desonestidade, a ambição desmedida e a falta de coerência. Os centristas estão divididos sobre quem vai ocupar os lugares dum velho táxi descontrolado que não vai à revisão há demasiado tempo. A direita tradicional portuguesa, democrática e humanista, já morreu. Mas, no fundo, ao vermos os trajectos posteriores do Dr. Amaral e do Dr. Pires, chegamos facimente à conclusão que se calhar morreu muito antes disso.
c)
PCP. Os comunistas portugueses têm e sempre tiveram duas caras. Uma é a que encabeça a luta vigorosa pelos direitos dos trabalhadores, outra é a da esterelidade habitual dos seus projectos. Por ser um partido endogenamente imutável, ganha em coerência o que perde em realidade e eficácia. O PCP deve ter a bancada parlamentar mais trabalhadora e séria da Assembleia. Bernardino Soares é um jovem veterano e Honório Novo é o economista que mais se destaca nas discussões sobre finanças e poder local.
Quer queiramos, quer não, os comunistas são a instituição política que melhor prepara os seus jovens, fazendo-lhes uma lavagem ao cérebro profundamente bem sucedida. Mas depois não lhes dá asas para poderem contribuir de forma válida para a sociedade: ficam eternamente agrilhoados às amarras de aço do partido. Pior ainda, os principais dirigentes comunistas acomodaram-se às poltronas de ouro oferecidas pelo Bloco Central e jamais sairão delas. A única vez em que se levantam é, como recenemtente aconteceu relativamente a Mobutu, para louvarem os líderes sanguinários comunistas que ainda pululam pelos países mais pobres do mundo.
d)
Bloco de Esquerda. Não há muito a dizer sobre os Bloquistas, apenas a ressalvar que esta legislatura foi a sua consolidação como grande pequeno partido e – acima de tudo – a sua definitiva hipoteca às vontades do outro Bloco: o Central. O BE tirou o fato de macaco e vestiu um Armani, deixou o ar revolucionário exaltado e adoptou a postura serena do capitalista que dizia tanto odiar. O dr. Louçã já não está para se chatear com grandes causas e, além disso, no Governo não está a direita por quem tem uma sco freudiano. Quando o sr. Sócrates foi para primeiro ministro, o dr. Louçã resolveu tirar férias e lá continuará nos próximos anos. Nos intervalos, lá se vai divertindo na estimulação intelectual das disputas parlamentares com o chefe do Governo, de onde ambos retiram laivos de prazer a cada demonstração subtil de arrogância desregada. São duas almas gémeas. – Cá fora, o povo suspira e encolhe os ombros.