622 anos de Aljubarrota
Em 14 de Agosto de 1385 foi travada entre portugueses e castelhanos a batalha de Aljubarrota, não muito longe do sítio onde hoje se admiram a igreja e convento da Batalha, erguidos em convento da Batalha, erguidos em comemoração da vitória. A desproporção das forças em presença — 7.000 portugueses para mais de 30.000 inimigos — o fulminante da vitória, as pesadíssimas perdas infligidas aos castelhanos, mas perdas infligidas aos castelhanos, a fuga do rei de Castela, a maneira como foi conduzida a batalha sob o aspecto puramente militar por esse extraordinário generalíssimo, e assombroso de misticismo religioso e de génio guerreiro, que se chamou D. Nuno Álvares Pereira, fazem de Aljubarrota o ponto central da longa guerra havida com Castela e a vitória mais representativa do esforço de nossos avós pela independência de Portugal. Esta é a primeira e grande liberdade por que se bateram então.
A crise de pensamento e de consciência que na passagem da primeira para a segunda dinastia atormentou os portugueses, os perigos que afrontaram, as fomes e pestes que sofreram, as lutas em que se empenharam só para manter o direito de não serem governados por outros e vincar a aspiração de continuar o seu rumo histórico sem sujeição a rei estrangeiro, gravaram para sempre Aljubarrota no espírito da Nação e fizeram desta data a verdadeira festa da independência.
Passaram sobre o acontecimento alguns séculos que não foram sempre de paz e concórdia na península. Novas dificuldades de sucessão no trono português trouxeram o domínio dos Filipes e contra ele as longas guerras da restauração. Sobre estas mesmas também já passaram séculos. Era ridículo ter alimentado nos corações os rancores nascidos nas batalhas: por isso Aljubarrota, Atoleiros, Valverde, com três séculos mais tarde Montijo, Ameixial, as linhas de Elvas, Montes Claros são vitórias mas não já gritos de ódio, não são hoje contra ninguém, são para nós mesmos.
E parece que assim mesmo deveria ser. Podemos orgulhar-nos de sermos na Europa o único país cujas fronteiras se podem dizer imutáveis desde há séculos; é, de facto curioso!
Uma vez talhada pelos primeiros reis na faixa atlântica, nem mesmo se notou nunca a preocupação de alargar na península as fronteiras da Pátria. Ia noutra direcção a força expansiva da raça, o seu génio descobridor e de colonização: pelo Atlântico, pelo Índico se expandiu o povo português, descobriu as terras e os mares, abriu aos outros povos novos mundos, levando e deixando por todaa parte o traço característico da sua dominação — o humanitarismo da suaalma latina, o apostolado da sua civilização cristã.
Por outro lado, a Espanha seguiu também o seu curso, ora paralelo ora concorrente, ergueu a sua história no nível dos grandes heroísmos e façanhas, fez na América Central e do Sul, afora o Brasil, poderosas nações, filhas do seu sangue e do seu catolicismo. Não precisara de nós e só contra nós não pudera nunca ter razão.
Estamos em face de um imperativo histórico, contra o qual têm lutado debalde os derrotistas, os acomodatícios, os filósofos d`aquém e d`além fronteiras. Estes têm o direito de, raciocinando sobre abstracções, classificar de erro o que os séculos impuseram e a nossa vontade inabalável se sente obrigada a manter.
Como sempre esta vontade não é nem tem de ser a de todos ou cada um dos portugueses, mas a que se desentranha da massa da Nação. Antes e depois de Aljubarrota havia portugueses partidários do rei de Castela, e opróprio D. Nuno Álvares Pereira sentiria alanceado o coração de saber irmãosseus lutando pelo rei estrangeiro. Em 1580, em 1640 também nos dividimos: membros do clero e da nobreza foram vítimas da dificuldade de ver claro em certos transes históricos, sobretudo se interesses elevados de qualquer ordem começam pesando na balança dos juízos, e a empecer as deliberações a que trazem em seu seio riscos da vida e da fortuna.
Mas os que, tendo à frente Álvaro Pais, quiseram que D.João, Mestre de Aviz, fosse proclamado «regedor e defensor do reino»; os que seguiram D. António, Prior do Crato; os que apoiaram e fizeram valer o grito dos fidalgos conspiradores da independência, em 1640, tiraram do seu mesmo desinteresse aquela clara visão do imperativo nacional que irresistivelmente os levou a esquecer a desproporção das forças e dos meios, os perigos da aventura e os benefícios que puderam usufruir de outras soluções. Não há dúvida de que, homens de escol nas letras, na política, nas armas o guiaram para as resoluções e vitórias definitivas, mas é preciso crer, em face de tais exemplos, que o povo é pela simplicidade da sua alma e espontaneidade dos seus sentimentos, a fonte sempre viva do nosso nacionalismo.
Que importa que no presente momento histórico não seja igualmente vista por muitos a necessidade e grandeza da obra nacionalizadora em marcha, se o povo tem a intuição duma época decisiva da nossa vida e de que por este caminho se retoma o velho rumo da história pátria!? Eis porque se pensou que a festa de hoje deveria ter o cunho de festa popular. Festa popular e festa de mocidade. Nuno Álvares tinha vinte e três anos quando da revolução em Lisboa, e 25 em Aljubarrota; D. João I, 25 ao ser proclamado defensor do reino e 27 na segunda daquelas datas. O estado maior do Condestável eram rapazes de pouca idade, com o espírito aventuroso e irrequieto dos jovens, insofridos nas pelejas, mas obedecendo cegamente ao chefe. Com estes se fez a campanha e se assegurou a independência de Portugal.
Hoje como então se exige espírito novo para fazer a revolução nacional o espírito novo é mais fácil encontrá-lo em novos que em velhos, ainda que haja velhos com mocidade de espírito e moços gastos por interesses e preocupações que não costumam ser da sua idade. É, porém, essencial que o espírito da mocidade seja por nós formado no sentido da vocação histórica de Portugal com os exemplos de que é fecunda a História, exemplos de sacrifício, patriotismo, desinteresse, abnegação, valentia, sentimento da dignidade própria, respeito absoluto pela alheia.
Facto cheio de ensinamentos é o comemorado hoje: homens que sirvam de exemplo para a nossa formação esses que, à volta de D. João I e do Condestável, maravilha não lhes tocaram nem os puderam diminuir. Sobretudo esse Condestável D. Nuno, depois Frei Nuno de Santa Maria, guerreiro e monge, chefe em maus anos seus bens pelos mesmos que derrotara em batalhas para que não mandassem na sua terra, erguido sua valentia no altar de Pátria como a Igreja o havia de erguer pelas suas virtudes nos altares da fé, cheio de honras e riquezas e enterrado em vida no Convento do Carmo, na dura estamenha de frade, quando depois de Ceuta lhe pareceu já não ser necessária a espada para defesa da Pátria, mas disposto de novo a vestir as armas se el-Rei de Castela a alguma vez tentasse invadir Portugal.
Por estes motivos os sítios de Aljubarrota e a Batalha devem ser os lugares de entre os eleitos para as grandes peregrinações patrióticas, e eu quisera que no próximo ano ali acorressem de todos os cantos de Portugal, milhares, centos de milhares de portugueses de hoje, sobretudo a juventude, para vivificar e robustecer ao calor dum passado heróico a sua devoção patriótica. E, visitados os campos da luta, entrariam, devotadamente na igreja do Convento da Batalha que, ao contrário da do Escurial de Filipe II, lúgubre e apropriada para as exéquias dum grande rei, é clara e triunfal, como se não fosse feita para a oração de todos os dias mas apenas para o solene Te Deum das grandes e magníficas vitórias.
Nunca passo ali, mesmo apertado pela estreiteza do tempo, que não me sinta obrigado a parar, a entrar e pisando a campa rasa do Rei de boa memória e parece ainda guardá-lo na morte, penetrar comovido na capela do Fundador. Aí se encontram os restos mortais de D. João I e da rainha D. Filipa de Lencastre, e à roda a «ínclita geração de altos infantes»; ali repousam os que consolidaram a independência de Portugal, se assentaram as bases da sua grandeza futura.
15/08/1935
António de Oliveira Salazar
Terça-feira, Agosto 14, 2007
Quinta-feira, Agosto 09, 2007
O caso Madeleine McCann
A comunicação social, a judiciária e a opinião pública tem revelado aquilo que de facto são: mesquinhos, ignorantes e próprios de um país de terceiro mundo.
Sobre a judiciária muito há a dizer, mas até sinto vergonha de escrever. Desde o triste (e muitas vezes repetido) episódio em que os investigadores gracejaram publicamente dos McCann, em que se enfardaram alarvemente em almoços intermináveis e em que gozaram o caso sem remorsos. O único comentário que faço é que é preferível um par de cães ingleses do que toda a nossa força policial junta.
A opinião pública inventa factos sobre os McCann, é insensível à sua dor, não tem respeito relativamente ao seu sofrimento e, pior ainda, acha que tem a obrigação de defender (acima de tudo) a pobre polícia judciária. Os portugueses não têm consciência que é uma tragédia universal que podia acontecer a todos e que só por serem ingleses não faz desta família alvo de ira ou culpa. Ainda por cima quando falamos de pais portugueses, estamos a ter em conta crianças selvagens, sem educação ou urbanidade, deixadas ao abandono da televisão e internet, sem o mínimo de valores, futuros adultos corruptos, mimados e com todos os vícios que fazem sofrer a nossa sociedade.
A comunicação social tem sido o espelho de si mesma. Muito se fala no exagero e na irresponsabilidade dos media ingleses, mas desta vez temos um termo de comparação real – e a que conclusão chegamos? Os sensacionalistas ingleses são uns anjos comparados com os portugueses. Os media portugueses revelam ser vingativos, dotados de sentimentos próprios e sem o mínimo de rigor ou transparência. Todos os dias resolvem dar especulações idiotas como se fossem notícias sérias e não olham a meios para criticar os ingleses: os jornalistas, os pais McCann e tudo o que mexa vindo de Inglaterra. Nestas ocasiões lastimo profundamente ter nascido em terras lusitanas.
Os McCann têm sido um grande exemplo, disso não há dúvida. De coragem e força, abnegação e paciência. Têm sido humildes e colaborantes com uma judiciária que não lhes dá qualquer garantia fiável de encontrar a filha, sempre crentes de que a filha está viva e sem uma gota de ressentimento para com um país que os trata mal. Mantêm sempre uma calma extraordinária, no meio da populaça dum país do terceiro mundo. Se fossem portugueses comuns teriam berrado, esperneado, gritado aos cinco ventos coisas tolas, dariam entrevistas estúpidas às revistas cor-de-rosa e seriam candidatos a aparecer no próximo Big Brother. O único erro dos McCann foi terem deixado a filha sozinha num país com uma justiça caricata e uma polícia amadora.
Não sei como vai terminar este caso, relativamente à pequena Maddie. Provavelmente está morta, espero que não. Mas serviu mais uma vez para denegrir a nossa imagem e para revelar como somos na verdade, sem máscaras.
A comunicação social, a judiciária e a opinião pública tem revelado aquilo que de facto são: mesquinhos, ignorantes e próprios de um país de terceiro mundo.
Sobre a judiciária muito há a dizer, mas até sinto vergonha de escrever. Desde o triste (e muitas vezes repetido) episódio em que os investigadores gracejaram publicamente dos McCann, em que se enfardaram alarvemente em almoços intermináveis e em que gozaram o caso sem remorsos. O único comentário que faço é que é preferível um par de cães ingleses do que toda a nossa força policial junta.
A opinião pública inventa factos sobre os McCann, é insensível à sua dor, não tem respeito relativamente ao seu sofrimento e, pior ainda, acha que tem a obrigação de defender (acima de tudo) a pobre polícia judciária. Os portugueses não têm consciência que é uma tragédia universal que podia acontecer a todos e que só por serem ingleses não faz desta família alvo de ira ou culpa. Ainda por cima quando falamos de pais portugueses, estamos a ter em conta crianças selvagens, sem educação ou urbanidade, deixadas ao abandono da televisão e internet, sem o mínimo de valores, futuros adultos corruptos, mimados e com todos os vícios que fazem sofrer a nossa sociedade.
A comunicação social tem sido o espelho de si mesma. Muito se fala no exagero e na irresponsabilidade dos media ingleses, mas desta vez temos um termo de comparação real – e a que conclusão chegamos? Os sensacionalistas ingleses são uns anjos comparados com os portugueses. Os media portugueses revelam ser vingativos, dotados de sentimentos próprios e sem o mínimo de rigor ou transparência. Todos os dias resolvem dar especulações idiotas como se fossem notícias sérias e não olham a meios para criticar os ingleses: os jornalistas, os pais McCann e tudo o que mexa vindo de Inglaterra. Nestas ocasiões lastimo profundamente ter nascido em terras lusitanas.
Os McCann têm sido um grande exemplo, disso não há dúvida. De coragem e força, abnegação e paciência. Têm sido humildes e colaborantes com uma judiciária que não lhes dá qualquer garantia fiável de encontrar a filha, sempre crentes de que a filha está viva e sem uma gota de ressentimento para com um país que os trata mal. Mantêm sempre uma calma extraordinária, no meio da populaça dum país do terceiro mundo. Se fossem portugueses comuns teriam berrado, esperneado, gritado aos cinco ventos coisas tolas, dariam entrevistas estúpidas às revistas cor-de-rosa e seriam candidatos a aparecer no próximo Big Brother. O único erro dos McCann foi terem deixado a filha sozinha num país com uma justiça caricata e uma polícia amadora.
Não sei como vai terminar este caso, relativamente à pequena Maddie. Provavelmente está morta, espero que não. Mas serviu mais uma vez para denegrir a nossa imagem e para revelar como somos na verdade, sem máscaras.
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