Quinta-feira, Março 13, 2008

O tempo na prisão

“O tempo é lento, menos quando estamos aqui nas oficinas, porque na ala ficamos malucas. Quando pensamos demais, vem tudo de mau à cabeça, todas aquelas coisas que não queremos relembrar”, lamenta, num suspiro aliviado, uma reclusa. A pena é uma hipoteca da vida e só tem uma forma de pagamento: o tempo.

Aqui o tempo tem um conceito completamente diferente do normal. Esqueçamos as teorias de Darwin e Einstein, porque na prisão os minutos são horas, as horas são dias e os dias são o principal inimigo do recluso. O ponteiro dos segundos do relógio é um torturador sádico que teima em relembrar que a pena afinal é eterna. Para a sociedade, e sobretudo para o recluso, a prisão é um purgatório de expiação de pecados muitas vezes inconfessáveis. A diferença em relação à concepção teológica é que no final não irá existir um paraíso, mas sim o regresso a outro inferno qualquer. E enquanto isto não acontece, a espera é tudo o que resta – uma espera que parece interminável, numa vida que parou algures no caminho.

A principal arma contra o tempo é o trabalho, disto não tenhamos dúvidas. Além de tirar da mente os pensamentos que arrastam consigo toda a espécie de problemas psicossomáticos, é um estímulo imprescindível para o aumento da auto-estima e da valorização pessoal. O próprio conceito adjacente a quem é detentor duma profissão, implica o estabelecimento duma identidade activa e participativa no contexto social. A partir do momento em que o recluso se insere, de forma continuada, em determinada brigada laboral, está a incluir-se num grupo profissional particular – e, embora não estejamos a falar dum emprego dum cidadão “normal”, contém em si muitos dos pressupostos básicos que formam a estrutura mental de qualquer trabalhador: o prazer na visão do produto final; a integração no esquema de procedimentos normalizados; a realização pessoal; a construção de hierarquias; o companheirismo ou conflituosidade nas relações localizadas; e as expectativas de reconhecimento do esforço.

Mesmo que muitas das circunstâncias sejam redutoras, já que estamos a falar de alguém que está privado da liberdade, não podemos minimizar a evolução do desenvolvimento comportamental do recluso em diferentes espaços de tempo – e muito menos deixar de analisar o que passa concretamente nas oficinas prisionais. Mais ainda: a observação da reclusa, na sua rotina diária do trabalho, deve ser ferramenta essencial para se poder aferir das reais condições de reinserção em diferentes momentos da pena.

Diogo Dantas
"Está alguém aí fora – estudo sobre o trabalho oficinal numa cadeia”
© Revista Temas Penitenciários, 2005

0 comentários: