Quinta-feira, Junho 19, 2008

Abre os olhos!


19h20, Av. Boavista, Porto. O trânsito está insuportável e uma possessão demoníaca invade os condutores, que passam sinais vermelhos e buzinam por tudo e por nada. Cataclismo? Terramoto? Meteoro? – Não, é a selecção nacional de futebol que vai jogar, “a equipa de todos nós”! Os heróis nacionais, aqueles por quem se põe a bandeira vermelha e verde às janelas e nos carros, aqueles por quem o povo suspira.

O assunto do mês é a selecção portuguesa, não o futebol. Mesmo para quem odeia desporto, apoiar a selecção nacional é uma forma superior de patriotismo e de amor pela nação. Nunca um investigador que passa os dias a descobrir formas de lutar contra o cancro, ou um homem que o superou. Estes normalmente são sujeitos à habitual inveja e mediocridade do povo, que arranja sempre motivos de crítica.

Quem nunca está sujeito a críticas é o “onze maravilha” - ao fim e ao cabo um bando de meninos mimados, pôdres de ricos, ganhando mensalmente valores impensáveis para um português que ganha uma miséria. Meninos mimados que não têm noção da labuta diária e do sofrimento por que passam milhões de portugueses, só para porem pão à mesa. Meninos mimados que não têm a mínima ideia sobre o que é o patriotismo, o amor pela bandeira, que jamais morreriam pelo país no mato da Guiné ou nas ruas de qualquer região perdida no mundo.

Portugal merece a alucinação colectiva destes dias, os jogadores de futebol (por mais geniais e formidáveis que sejam) não. Portugal merecia que esta alucinação se prolongasse no tempo e no espaço, que se falasse do país por razões válidas. E que não se criticasse tanto e se fizesse tão pouco, principamente na altura das eleições. Portugal merecia que o povo se mobilizasse para ultrapassar a República Checa no índice de desenvolvimento humano, que tentasse ter maior confiança económica do que Marrocos, que pudesse chegar ao PIB per capita do Chipre.

O jogo está quase a terminar e o comentador diz, “Portugal está partido em dois” – mas logo depois tem um segundo de lucidez, “Portugal? Salvo seja, a selecção portuguesa de futebol!”.

Coloquei esta fotografia, não para crucificar o mesmo homem que há dois e quatro anos foi herói nacional. Esta fotografia é a imagem do povo português, que é levada ao extremo nestes eventos futebolisticos: fechar os olhos quando uma crise se aproxima. Fechar os olhos aos problemas do país, à miséria na saúde, na economia e na educação. Fechar os olhos e colocar a esperança em algo que lhes é inatingível e supérfluo. Abre os olhos!

Sábado, Junho 07, 2008

A invasão do Porto

Ontem foi dia de protesto no Porto. Centenas de camionistas bloquearam a cidade, as suas entradas e saídas, com buzinões fortes, muito barulho e confusão. O pretexto foi a subida da gasolina e uma forma de chamar a atenção ao Governo autista que temos.
O Porto, sempre o Porto. Foi preciso vir para o Porto fazer barulho, para se ouvir em Lisboa? O Porto, que tantas vezes tem sido ostracizado ao longo dos anos pelo poder central, que tem pago as obras públicas a sul e também quem mais sofre com os erros governamentais, as portagens e o incompetência sulista.

Fazia muito mais sentido terem bloqueado as grandes distribuidoras, tal como foi falado a certa altura. Pelo contrário, o que se promoveu foi um dia para o gasto desregado e idiota do combustível que tanta falta nos faz: filas e mais filas, pára e arranca, buzinas e buzinões. E incomodando a população em geral, que não tem culpa nenhuma e paga todos os dias pela actual crise.

A solução para este tipo de situações é difícil e só se poderá fazer face no futuro a crises semelhantes, através da prevenção e do estudo adequado dos mecanismos de preços. E isto aplica-se aos cereiais, ao petróleo e a qualquer outro bem essencial. Não sou a favor da regulamentação da economia por parte do Estado, mas é necessário que este intervenha sempre que há (como é o caso) desiquilibrios exógenos que afectem o sistema mundial.