Haja SaúdeUm dos melhores meios para se aferir do verdadeiro grau de desenvolvimento de um país é o estado da sua saúde. Ao analizarmos o caso português, chegamos à conclusão que temos elementos de um país do terceiro mundo: falta de condições em certas zonas do país, estado de sítio em algumas unidades de saúde e falta de médicos. Aqui não se irá falar do problema do encerramento das unidades de saúde ou das maternidades. Há demasiadas opiniões a esse respeito e a questão já foi suficientemente politizada. Falaremos, em vez disso, do principal elo para a cura de um doente: o médico.
É triste ouvir a arrogância do bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, a falar sobre a falta de profissionais em Portugal. Diz este senhor que "os médicos estudam durante seis anos e têm de obter um retorno ao seu investimento no final do curso" e ainda que "é impensável haverem médicos no desemprego". É extraordinário que alguém fale assim num país civilizado sem ser chamado à atenção - sim, porque este discurso não é novo, já tem largos anos. O que eu mais queria é que a Ordem dos Economistas tivesse o poder para falar da mesma forma, mas isso não é possível. Por isso, como economista, só posso dizer uma coisa a este senhor: a concorrência é a melhor coisa do mundo, gera competitividade, aumenta a qualidade e diminui o preço. - O único problema é que é um obstáculo a grandes lucros e fortunas.
Há grandes profissionais em Portugal, pessoas com grande capacidade de trabalho e com grande autoridade em diferentes matérias. Mas há também profissionais medíocres, que teimam em não se actualizar e a quem falta muito na simples sociabilidade humana. Mas o mais grave é a desresponsabiização dos erros: quando um economista, por exemplo, faz uma empresa falir, vai a tribunal e é eternamente condenado pelos seus erros. Quando um médico erra, a culpa é sempre de um ente superior ou de algo diferente, como se a medicina fosse algo de esotérico e não passível de discussão. No nosso país parece que um médico não é uma pessoa comum, um profissional como quaquer outro: é um super-homem com poderes sobrenaturais e com um escudo intocável. Estaremos ao nível do terceiro mundo enquanto o poder político não perceber que a medicina não pode ser um negócio com lucros gigantescos (nem para interesses privados, nem para os próprios médicos).
É preciso mais médicos em Portugal: no interior, nas aldeias, nos hospitais (onde há profissionais a fazerem turnos de vinte e cinco horas). É preciso que o habitual génio dos portugueses para a inovação se centre nos tratamentos das doenças e na sua prevenção. É preciso que os Governos deixem de poupar na Saúde, que deixe de haver a disparidade entre o interior e o litoral. Haja saúde para sobrevivermos a este país.