Quinta-feira, Julho 31, 2008

Por qué no te callas?


A comunicação ao país do sr. Presidente da República é daqui a duas horas. Vejamos as hipóteses sobre o assunto a ser tratado:

a) Se vai falar sobre a situação económica, mais valia estar calado, porque estamos a começar as férias e não há pior altura para fazer uma análise macroeconómica;

b) Se vai falar sobre o estatuto dos Açores, mais valia estar calado, porque vai estar a dar importância demasiada a um caso cujos contornos ainda estão na fase inical e, francamente, pouco interessa nesta altura;

c) Se vai falar sobre alguma promulgação e possível veto, mais valia estar calado, porque não faz sentido falar nisso a 31 de Julho e é algo que pode esperar mais um mês ;

d) Se vai desejar boas férias ou alguma coisa do mesmo nível de importância pontual das anteriores, mais valia estar calado, porque é uma anedota.

Segunda-feira, Julho 28, 2008

Haja Saúde

Um dos melhores meios para se aferir do verdadeiro grau de desenvolvimento de um país é o estado da sua saúde. Ao analizarmos o caso português, chegamos à conclusão que temos elementos de um país do terceiro mundo: falta de condições em certas zonas do país, estado de sítio em algumas unidades de saúde e falta de médicos. Aqui não se irá falar do problema do encerramento das unidades de saúde ou das maternidades. Há demasiadas opiniões a esse respeito e a questão já foi suficientemente politizada. Falaremos, em vez disso, do principal elo para a cura de um doente: o médico.

É triste ouvir a arrogância do bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, a falar sobre a falta de profissionais em Portugal. Diz este senhor que "os médicos estudam durante seis anos e têm de obter um retorno ao seu investimento no final do curso" e ainda que "é impensável haverem médicos no desemprego". É extraordinário que alguém fale assim num país civilizado sem ser chamado à atenção - sim, porque este discurso não é novo, já tem largos anos. O que eu mais queria é que a Ordem dos Economistas tivesse o poder para falar da mesma forma, mas isso não é possível. Por isso, como economista, só posso dizer uma coisa a este senhor: a concorrência é a melhor coisa do mundo, gera competitividade, aumenta a qualidade e diminui o preço. - O único problema é que é um obstáculo a grandes lucros e fortunas.

Há grandes profissionais em Portugal, pessoas com grande capacidade de trabalho e com grande autoridade em diferentes matérias. Mas há também profissionais medíocres, que teimam em não se actualizar e a quem falta muito na simples sociabilidade humana. Mas o mais grave é a desresponsabiização dos erros: quando um economista, por exemplo, faz uma empresa falir, vai a tribunal e é eternamente condenado pelos seus erros. Quando um médico erra, a culpa é sempre de um ente superior ou de algo diferente, como se a medicina fosse algo de esotérico e não passível de discussão. No nosso país parece que um médico não é uma pessoa comum, um profissional como quaquer outro: é um super-homem com poderes sobrenaturais e com um escudo intocável. Estaremos ao nível do terceiro mundo enquanto o poder político não perceber que a medicina não pode ser um negócio com lucros gigantescos (nem para interesses privados, nem para os próprios médicos).

É preciso mais médicos em Portugal: no interior, nas aldeias, nos hospitais (onde há profissionais a fazerem turnos de vinte e cinco horas). É preciso que o habitual génio dos portugueses para a inovação se centre nos tratamentos das doenças e na sua prevenção. É preciso que os Governos deixem de poupar na Saúde, que deixe de haver a disparidade entre o interior e o litoral. Haja saúde para sobrevivermos a este país.

Quinta-feira, Julho 24, 2008

A mentira da verdade
O caso McCann foi um caso notável de dinheiro dos contribuintes mal gasto. Entre diligências intermináveis que não resultaram em nada, poderes mal concentrados e muitos recuos, eis que o processo chega ao fim. Não sei o que aconteceu a Maddie McCann, nem me atrevo a fazer conjecturas, mas sei que um crime foi cometido e os culpados andam à solta.

Gonçalo Amaral é o homem que apareceu na comunicação social de todo o mundo com a camisa aberta a mostrar o peito e o cordão de ouro. Tem aquele ar típicamente português que normalmente é enxovalhado lá fora. O caso que apresenta no livro A verdade da mentira não tem ponta por onde se lhe pegue e assusta pensar que qualquer crime em Portugal possa ser provado de forma tão superficial e ligeira. Mas mais difícil de aceitar é o seu tom vingativo. Faz pensar. Sabemos que na teoria a justica foi criada para proteger a sociedade de pessoas que atentam contra a sua estabilidade, paz e harmonia. Mas perguntamo-nos agora quem defende os cidadãos da investigação descontrolada e da justiça que é tudo menos cega. Ninguém, adianto eu.

Acredito que a PJ do Algarve faça um excelente serviço em matérias como o contrabando de droga, mas esta não foi a primeira vez que revelou problemas em casos de homicídio. Pode até não ser tão incompetente como parece, mas não revelou qualquer sensibilidade a trabalhar com a imprensa. Pior, mostrou estupidez crónica. Tentou utilizar a comunicação social, mas a forma como o fez foi precipitada e inconsistente. Quem pagou foi Gonçalo Amaral e foi possivelmente injusto pelo curriculum que foi acumulando, em outras áreas, ao longo dos tempos.
Neste caso a única verdadeira vítima foi uma pequena criança a quem foi brutalmente roubado o futuro, de seu nome Madeleine McCann. Onde quer que esteja, costuma dizer-se que estará melhor do que aqui. Mas há um mundo inteiro que sentirá a sua falta.