Segunda-feira, Agosto 25, 2008

Política à portuguesa

É preocupante que as sondagens dêem vantagem aos socialistas, apesar do estado calamitoso a que as coisas chegaram. Estamos numa situação económica desastrosa, com grande parte das famílias a ficarem no limiar da pobreza, as indústrias do norte a fecharem e as empresas do sul a falirem – mas a culpa é da conjuntura mundial ou da União Europeia, tudo menos da incompetência do Governo. Estivemos recentemente quase em estado de sítio, com bens essenciais a faltarem nas prateleiras e sem combustível para fazer as máquinas funcionarem – mas a culpa é dos americanos ou dos árabes, dos camionistas ou das gasolineiras, tudo menos da pandilha do sr. Sócrates.

É verdade que a comunicação social se ajoelhou aos pés deste Governo, ainda antes da sua subida ao poder. E é verdade que a oposição é absolutamente estéril e estúpida. Mas só isso não explica o desânimo e o baixar dos braços. O nosso país está doente e só se parece erguer sempre que há jogos de futebol. Estamos tristes, falidos, cada vez mais ignorantes e distantes do resto da Europa. E o pior é que ninguém se parece importar com isso.

A única verdadeira oposição vem de dentro do próprio PS, o que só por si é sintomático de algo que não está bem. Os outros partidos alinham na mesma disposição em que se encontra o resto do país, senão vejamos:

a) PSD. Caiu num buraco tão fundo que jamais se conseguirá reerguer. Submerso na lama das disputas pessoais e das vaidades individuais, é um pântano de rivalidades, ódios e invejas. A instabilidade social actual, provocada pela insegurança generalizada e a criminalidade violenta, seriam uma oportunidade de ouro para qualquer oposição minimamente eficiente. Como é possível se a única esperança visível para voltarem ao poder seja o bloco central? O facto de estarem há tantos anos longe do Governo entropeceu-lhes o cérebro – porque a verdade é mesmo essa: o PSD é uma besta de esferovite que se alimenta unicamente de poder.

b) CDS. Inacreditável medíocridade. Seria a grande oportunidade desde a sua fundação, por poder ocupar o espaço recentemente desocupado à direita e centro-direita. Mas não conseguiu e o principa problema não é uma falha ideológica ou omissão de projectos. – O principal problema é a falta de valores humanos: de um lado a lamnetável pequenez de um discurso gasto e há muito falido; do outro, a desonestidade, a ambição desmedida e a falta de coerência. Os centristas estão divididos sobre quem vai ocupar os lugares dum velho táxi descontrolado que não vai à revisão há demasiado tempo. A direita tradicional portuguesa, democrática e humanista, já morreu. Mas, no fundo, ao vermos os trajectos posteriores do Dr. Amaral e do Dr. Pires, chegamos facimente à conclusão que se calhar morreu muito antes disso.

c) PCP. Os comunistas portugueses têm e sempre tiveram duas caras. Uma é a que encabeça a luta vigorosa pelos direitos dos trabalhadores, outra é a da esterelidade habitual dos seus projectos. Por ser um partido endogenamente imutável, ganha em coerência o que perde em realidade e eficácia. O PCP deve ter a bancada parlamentar mais trabalhadora e séria da Assembleia. Bernardino Soares é um jovem veterano e Honório Novo é o economista que mais se destaca nas discussões sobre finanças e poder local.
Quer queiramos, quer não, os comunistas são a instituição política que melhor prepara os seus jovens, fazendo-lhes uma lavagem ao cérebro profundamente bem sucedida. Mas depois não lhes dá asas para poderem contribuir de forma válida para a sociedade: ficam eternamente agrilhoados às amarras de aço do partido. Pior ainda, os principais dirigentes comunistas acomodaram-se às poltronas de ouro oferecidas pelo Bloco Central e jamais sairão delas. A única vez em que se levantam é, como recenemtente aconteceu relativamente a Mobutu, para louvarem os líderes sanguinários comunistas que ainda pululam pelos países mais pobres do mundo.

d) Bloco de Esquerda. Não há muito a dizer sobre os Bloquistas, apenas a ressalvar que esta legislatura foi a sua consolidação como grande pequeno partido e – acima de tudo – a sua definitiva hipoteca às vontades do outro Bloco: o Central. O BE tirou o fato de macaco e vestiu um Armani, deixou o ar revolucionário exaltado e adoptou a postura serena do capitalista que dizia tanto odiar. O dr. Louçã já não está para se chatear com grandes causas e, além disso, no Governo não está a direita por quem tem uma sco freudiano. Quando o sr. Sócrates foi para primeiro ministro, o dr. Louçã resolveu tirar férias e lá continuará nos próximos anos. Nos intervalos, lá se vai divertindo na estimulação intelectual das disputas parlamentares com o chefe do Governo, de onde ambos retiram laivos de prazer a cada demonstração subtil de arrogância desregada. São duas almas gémeas. – Cá fora, o povo suspira e encolhe os ombros.

Quinta-feira, Agosto 21, 2008

Nelson Évora - Campeão Olímpico


Carlos Lopes 84, Rosa Mota 88, Fernanda Ribeiro 96 e Nelson Évora.

Sexta-feira, Agosto 08, 2008

Criminalidade em Portugal


23:24, Lisboa. Acabou o assalto ao BES de Campollide, em Lisboa. Momentos trágicos, com tiros e aparentemente morte de ambos os assaltantes. Nos próximos dias, pelo menos, não se falará noutra coisa. Não sou especialista, nem das forças policias, nem dos assaltantes. Mas quando liguei a TV pelas 23h os bandidos estavam a apontar armas aos reféns de fora da dependência bancária, portanto completamente expostos. E este facto foi decisivo e facilitou a tarefa dos polícias.

Há duas coisas fundamentais a tirar do sucedido. A primeira é que a criminalidade violenta está a aumentar exponencialmente. Depois do “Car-Jacking”, de que tanto se fala, agora é o assalto aos bancos a ficar na ordem do dia. A segunda é que as forças policiais portuguesas, ou pelo menos as lisboetas, são excelentes: três tiros, um deles de “sniper”, e o assunto resolvido. Durante as próximas semanas vamos ouvir o povo elogiar a polícia, porque pode-se pensar que isto "serve de lição" - nada mais errado, pode é até ser pior para futuros reféns. Mas o facto é que apesar das prováveis fatalidades, neste caso não havia muito mais a fazer.

Ficam finalmente duas perguntas: será que é desta que o poder político vai começar a pensar no estado calamitoso em que estáo país, ou pelo facto de serem brasileiros vão “chutar a bola para canto”?; se fosse noutro local do país, fora da capital, com assaltantes mais espertos e numa cidade esquecida , como seria? Mais vale utilizar o “homebanking”...

Segunda-feira, Agosto 04, 2008

Dita Dura

Desprezível, mesquinho e inocentemente estúpido – descrevo assim o documentário “Cartas a uma ditadura” de Inês Medeiros, que passou ontem à noite na RTP2. Datado de 2006, segue a mesma linha medíocre do filme realizado pela sua irmã. Não foi independente, muito menos rigoroso. Se na realidade foi uma hora que não serviu para absolutamente nada, aproveitarei agora alguns aspectos para fazer uma reflexão sobre a evolução da sociedade portuguesa e as novas classes sociais, formadas nos últimos trinta anos.

A chave para compreendermos a organização e pensamento da sociedade actual, está na forma solene e “heróica” como Inês de Medeiros acaba o documentário, com a senhora do povo a dizer que é orgulhosa porque lutou muito para que os netos sejam hoje “doutores” que ganham muito bem. No fundo, para a geração da autora, está é a grande conquista de Abril: a democratização do ensino, o acesso “universal” a empregos de sucesso e a “melhoria” de nível de vida quando comparada com os avós. Se calhar vou ser um pouco duro a partir daqui, mas a verdade é que há elementos comuns a esta geração e a esta gente, que abarcam a maioria do Portugal de hoje, sobretudo na classes média e alta: políticos, advogados, médicos, gestores e demais tecnocratas. É esta geração que tomou conta do nosso país de há algum tempo para cá, por isso façamos uma pequena análise às suas características.

Em primeiro lugar, um ódio profundo e vísceral às classes altas de algumas décadas atrás. Exemplo neste documentário foi a forma como a autora ridicularizou os valores fundamentais das famílias tradicionais e a troça com que eram apresentados os testemunhos das senhoras da época. A explicação para este ódio parece-me simples: apesar de agora ter o dinheiro e o poder, o conforto e a estabilidade, esta populaça jamais conseguirá ter aquilo que se ensina e se forma neste tipo de famílias, e que está enraízado em séculos de honra, dignidade e sobriedade.

Em segundo lugar, vejamos como está o estado do nosso país passados todos estes anos: nunca houve tanta corrupção e mentira, engano e criminalidade; as oportunidades de desenvolvimento dissiparam-se quando um pequeno grupo (pertencente à populaça) se apropriou das ajudas europeias para enriquecer; o crescimento económico-social foi desiquilibrado e apenas serviu interesses específicos; a cultura nunca teve tão mal e a educação é o saco de lixo da sociedade.

Em terceiro lugar, se formos coerentes e correctos na análise das razões humanas que levaram ao descalabro português, chegamos à conclusão que faltaram os valores que a autora do documentário ridicularizou. Faltou a equidade e a liberdade (que muitos apregoam terem descoberto), sobretudo nunca existiu uma verdadeira democracia. Afinal, os tais “doutores” filhos do povo, não têm servido o país – mas têm-se servido dele como vampiros sedentos de sangue, apropriando-se da riqueza e protegendo-a na sua matilha: leia-se política, grupos empresariais, associações sociais e outras ordens. Fazem-no por si e para si mesmos, pela sua descendência e, sobretudo, em honra da tal ascendência que “gloriosamente” batalhou para que “os filhos não fossem criados”. Pergunto aqui e agora: em vez de criados, não passaram a ser escravos?

Finalmente, faço apenas um pequeno apontamento sobre este facto hilariante: passados mais de trinta anos, Portugal que ainda não está em paz sobre essa rotura com o passado. Há uma opinião corrente e oficial (a do documentário) que não deixa enterrar o que se passou, que quer exibir os seus troféus e as suas vitórias recentes. Para toda essa gente, deixo o único e verdadeiro prémio que algumas vez conseguirão daqui deste lado: a visão de um Portugal decaído, humanamente miserável e socialmente perdido.